| Curiosidade
03/11/07
Flores que mudam de cor
Algumas
das plantas mais comumente cultivadas em jardins domésticos
são admiradas por um motivo bastante curioso:
suas flores mudam de cor. Esse é o caso do Cambará
(Lantana camara, Verbenaceae), da Papoula-de-duas-cores
(Hibiscus mutabilis, Malvaceae), do Manacá-da-serra
(Tibouchina mutabilis, Melastomataceae) e do Manacá-de-cheiro
(Brunfelsia uniflora, Solanaceae). Nessas e em muitas
outras espécies, é bom frisar, as plantas
não produzem flores de cores diferentes. São
as flores que mudam de cor ao longo do seu tempo de
vida. Eventos florais desse tipo só podem ser
percebidos mais claramente quando o observador acompanha
o destino de flores individuais.
A
mudança de cor é um fenômeno relativamente
comum entre as angiospermas. Ocorre enquanto a flor
ainda é jovem, não devendo tal mudança
ser confundida com a perda de cores e o escurecimento
que acompanham o processo de senescência. Em termos
funcionais, são conhecidos ao menos sete diferentes
mecanismos associados à mudança de cor
das flores, envolvendo três grandes classes de
pigmentos vegetais (carotenóides, flavonóides
e betalaínas).
Carotenóides,
flavonóides e betalaínas são compostos
secundários que, além de dar cor a flores
e frutos, têm outras importantes funções
biológicas. As betalaínas são responsáveis
por um leque de cores (amarelo, alaranjado, vermelho,
rosa, púrpura), sendo encontradas porém
apenas em plantas da ordem Caryophyllales. Como exemplos,
podemos citar a Rosinha-de-sol (Aptenia cordifolia,
Aizoaceae), Periquito (Alternanthera ficoidea, Amaranthaceae),
Três-marias (Bougainvillea spectabilis, Nyctaginaceae),
Onze-horas (Portulaca grandiflora, Portulacaceae), Beterraba
(Beta vulgaris, Chenopodiaceae) e os cactos em geral
(Cactaceae).
Os
carotenóides são responsáveis por
um leque semelhante de cores (amarelo, alaranjado, vermelho,
marrom), sendo encontrados na cenoura, tomate, laranja,
pimenta e nas flores do Cravo-de-defunto (Tagetes erecta,
Asteraceae). Por fim, temos os flavonóides, responsáveis
pela maioria das cores observadas em flores e frutos
(amarelo, alaranjado, vermelho, azul). As antocianinas
são o grupo mais comum de flavonóides.
As
betalaínas e antocianinas não co-ocorrem
em uma mesma planta. Quer dizer, plantas que têm
antocianina não possuem betalaína, e vice-versa.
Flavonas e flavonóis também são
grupos de flavonóides encontrados em flores,
principalmente nos chamados guias de néctar.
Esses pigmentos absorvem certos comprimentos de luz
que são invisíveis ao olho humano, mas
que são visíveis para outros animais (muitos
insetos, por exemplo). De todos os mecanismos bioquímicos
e fisiológicos associados com a mudança
de cor das flores, a manifestação da antocianina
é o mais comum deles.
Fatores
ambientais, como diferenças no pH do solo, podem
levar a mudanças na coloração das
flores. Essas mudanças também podem ser
pré-programadas, como ocorre com a Pata-de-vaca
(Bauhnia monandra, Leguminosae). A flor jovem da pata-de-vaca
é esbranquiçada, com uma grande mancha
vermelha no meio da pétala central; em determinado
momento da vida da flor, no entanto, a pétala
central curva-se para trás, como querendo se
esconder. Após a conclusão desse movimento,
todas as demais pétalas tornam-se rosa. Assim,
o que no início era uma flor branca com uma grande
mancha vermelha em uma das pétalas transforma-se
em uma flor uniformemente rosa.
Descrever
os mecanismo pelos quais as flores mudam de cor é
um dos objetivos dos estudiosos que lidam com o assunto.
Resta, no entanto, um outro, ainda mais complexo e difícil:
identificar as pressões seletivas que teriam
favorecido a evolução de tal comportamento.
Nos próximos parágrafos, vamos tocar apenas
na superfície desse assunto.
Guias
de néctar
A
mudança de cor das flores está quase sempre
associada à presença de polinizadores
animais. Por meio desse mecanismo, a planta pode controlar
diversos parâmetros (quantidade, ritmo, ordem
etc.) das visitas que os polinizadores fazem em suas
flores. No contexto da interação entre
a planta e seus polinizadores, cores diferentes podem
indicar que flores estão produzindo néctar,
onde há pólen e quais estigmas estão
receptivos. Tudo isso pode tornar a polinização
um processo mais rápido, seguro e eficiente;
do ponto de vista dos polinizadores, pode também
funcionar como um sistema de sinalização,
por meio do qual eles economizam tempo e energia.
Dependendo
do tipo de visitante, a flor inteira ou partes dela
– cálice, corola, androceu, gineceu –
podem mudar de cor. Mudanças na flor inteira
podem ser o melhor jeito de sinalizar para um morcego
ou uma mariposa voando à noite. Para atrair beija-flores,
que costumam procurar por néctar no interior
de flores tubulosas, a mudança mais comum ocorre
justamente na face interna da corola. Já abelhas,
borboletas e moscas costumam visitar flores que passam
por mudanças em estruturas localizadas, como
nos chamados guias de néctar. De um modo geral,
essas mudanças ocorrem na maior ou na mais visível
das estruturas da flor.
O
guia de néctar consiste de pontos, manchas ou
figuras cujo colorido contrasta com o fundo (em geral,
a face interna das pétalas) e cuja disposição
sinaliza para o polinizador o caminho ou a orientação
que ele deve adotar para ter acesso fácil ao
néctar. Fazendo isso, o animal termina encostando
partes do seu corpo nos órgãos sexuais
da flor, tornando ainda mais eficiente e segura tanto
a retirada como a deposição de grãos
de pólen. O guia de néctar de algumas
flores é visível aos nossos olhos, muitos,
porém, não o são. Isso porque os
polinizadores (insetos, principalmente) enxergam faixas
do espectro luminoso que nós não enxergamos.
Exemplos familiares de flores com guia de néctar
visível incluem a Azálea (Rhododendron
simsii, Ericaceae) e a Pata-de-vaca (Bauhnia monandra,
Leguminosae).
Autor:
Marinês Eiterer
Fonte
de pesquisa: Revista AUE Paisagismo
Paisagismo Brasil
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