| Dica
11/07/07
Plantas
ajudam a solucionar crimes... mas também matam
Perigo
sem aviso
Se
as plantas podem “falar” pelos mortos e
até ajudar a solucionar crimes, podem também
causar mortes acidentais ou intencionais. De tal forma
que os especialistas de medicina forense reconhecem
cada vez mais a utilidade dos conhecimentos de botânica.
Paula Alexandra Almeida
Maria Cristina Mendonça,
patologista forense no Instituto Nacional de Medicina
Legal, valoriza a contribuição da botânica
no âmbito das perícias médico-legais
e na investigação criminal. Efetivamente,
muitos vestígios existentes nos corpos podem
orientar os peritos sobre o local em que estavam, há
quanto tempo morreram ou a época do ano em que
isso aconteceu.
“No exame de um
cadáver, os vestígios vegetais que eventualmente
estejam no corpo podem dar indicação do
local da morte, que pode não coincidir com o
local onde o corpo é encontrado”, revela.
Esses vestígios podem ser macroscópicos
-troncos, folhas, ramos, etc. -, ou microscópicos,
nomeadamente os grãos de pólen e esporos,
que podem ser indicativos. Esta é, aliás,
uma área que está em franco desenvolvimento
e que é denominada como palinologia forense.
“Às vezes, a presença de polens
nas pregas da roupa, nas fossas nasais, na lama das
solas dos sapatos, pode ajudar a identificar o local
onde ocorreu a morte do indivíduo”.
A este propósito,
Maria Cristina Mendonça recorda o caso de um
corpo que apareceu num saco de plástico onde
se encontraram agulhas de pinheiro. “O saco foi
encontrado na beira de uma estrada onde não existiam
pinheiros, logo isso foi decisivo para orientar as investigações”.
Há outros estudos
paralelos que têm a ver, por exemplo, com entomologia
forense, o estudo dos insetos que colonizam os corpos.
Quem não conhece o famoso personagem da série
televisiva CSI Las Vegas, Gil Grissom, que estuda e
coleciona toda a espécie de insetos? “Os
insetos dão muita informação, não
só em termos de tempos de morte, porque vão
colonizar seguindo uma cronologia relativamente rigorosa
dentro dos ciclos de metamorfose próprios da
espécie, mas também do local ou da época
do ano em que a morte ocorreu”.
Todos estes aspectos
são interessantes porque ajudam na resolução
de enigmas ligados à morte. “Quando se
estuda a causa da morte, há muitos elementos
que se podem recolher para além do cadáver
- o seu espólio, restos vegetais, restos animais,
elementos tóxicos… tudo isto vai para além
do próprio corpo”.
Nesta perspectiva pode
ser importante o papel dos vestígios botânicos
na compreensão da causa da morte, como acontece
em casos de afogamento em que a presença de algas
microscópicas em determinados órgãos
pode ajudar a descobrir se a pessoa se afogou ou se
estava já morta e foi colocada na água
para encobrir um homicídio. Quando uma pessoa
morre afogada há penetração de
líquido nas vias aéreas, que passa depois
aos pulmões e posteriormente ao sangue. “Mas
para isso a pessoa tem que estar viva ao entrar na água”,
salienta a especialista. “Se a pessoa entrar na
água já cadáver, não há
passagem da água para o sangue e a infiltração
fica-se pelas vias aéreas”.
Existem componentes
microscópicos botânicos na água
— microalgas designadas diatomáceas —
que podem ultrapassar a membrana pulmonar e passar ao
sangue, distribuindo-se por todo o corpo. “Se
estudarmos, em algumas zonas concretas e que não
estejam conspurcadas, a presença dessas microalgas,
podemos teoricamente dizer que essa pessoa entrou viva
para a água”, revela. E a não existência
poderá levar à conclusão contrária.
Plantas
que matam
Mas se as plantas ajudam,
também podem complicar, e fatalmente. Helena
Teixeira, toxicologista forense do INML, alerta que
“antes de mais é preciso ter a noção
da diversidade de plantas que existem no mundo e, em
particular, no nosso país”. Por outro lado,
mesmo admitindo que existe algum conhecimento por parte
de certos especialistas que trabalham directamente com
estas espécies, a grande maioria das pessoas
desconhece a grande diversidade de plantas tóxicas
que existe à disposição de qualquer
um, com o inconveniente de não constar, em nenhuma
delas o “símbolo de toxicidade”,
existente na maioria dos produtos comercializados no
nosso país.
Mas, afirma ainda, “os
sintomas de intoxicação dependem do produto,
da quantidade ingerida e de certas características
físicas da pessoa que o ingeriu. Algumas substâncias
não são muito potentes e exigem uma exposição
contínua para que ocorram problemas. Outros produtos
são mais tóxicos e basta uma pequena quantidade
para causar graves intoxicações”.
Reportando ao uso de
plantas com conhecimento das suas propriedades, a toxicologista
recorda o caso mediático que no ano passado vitimou
um jovem madeirense com chá de trombeteira. “Eram
jovens que sabiam que aquelas plantas - que existem
nos jardins à mão de semear - teriam alguns
efeitos alucinogénicos. Não saberiam,
no entanto, a gravidade da sua utilização
desmedida, como foi o caso”. Foi através
da análise toxicológica que se conseguiu
determinar o alcalóide responsável pela
intoxicação mortal do jovem.
Apesar de não
serem muitos os casos registados nesta área,
Helena Teixeira admite que haja uma sub-avaliação,
já que muitas das intoxicações
estão relacionadas com utilizações
acidentais e nunca se pensa em plantas como primeira
suspeita de intoxicação se não
for fornecida a correspondente informação
circunstancial.
E são muitos
os exemplos. A rama da batateira é fatal para
humanos e animais. O estramônio, ou figueira do
inferno, da família das felanácias, é
uma planta tóxica. Mas um dos casos mais notórios
é a o da dieffenbachia, uma planta que existe
em quase todos os lares e jardins, exteriores e interiores,
e cuja seiva pode provocar edema da glote. Aliás,
“as plantas ornamentais usadas indevidamente podem
causar intoxicações graves se indevidamente
utilizadas”.
Outro aspecto ligado
à toxicologia tem a ver com os caroços
de algumas frutas – pêssegos, cerejas, ameixas
— que contêm compostos cianogénicos,
“derivados do cianeto que podem levar à
morte, dependendo da quantidade ingerida”. É
costume nos livros policiais aludir-se ao cheiro a amêndoas
amargas exalado pelos cadáveres vítimas
de intoxicação com cianeto ou seus derivados.
É verdade, clarifica
Helena Teixeira. A própria bebida conhecida como
“Amêndoa amarga” contém derivados
cianogénicos. E se no homem não provoca
intoxicação, quanto às mulheres,
“é importante que se faça referência
que se estiverem grávidas não devem beber
podendo correr o risco de abortar se a percentagem incluída
na bebida for em demasia”.
Fonte:
Jornal O Primeiro de Janeiro - Portugal
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